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(02) Se você soubesse o quanto é prejudicado, o que faria?



No ano de 2014 o Estado de São Paulo viveu uma crise hídrica histórica e “inesperada”. Em Ribeirão Preto fiéis se reuniram para fazer orações na Catedral de São Pedro pedindo a Deus providências de chuva por sentirem que a ausência de água estava no limite do suportável. Neste ano o número de fiéis bateu recordes já que mais pessoas também se sentiram prejudicadas pela falta de água na cidade. Afinal, todos os anos, já se tornou um rito para o pessoal morador da área rural levar suas garrafinhas de água para a igreja, colocá-las sobre o altar e fazerem ali “tudo o que podem” orando.

Em 2010, Parauapebas, município do interior do Pará, presenciou resignada uma mãe velar seu filho na sarjeta. “Não era possível” retirar o corpo do local já que o IML estava em greve, a Polícia Militar não tinha a responsabilidade legal de cuidar do assunto e a Polícia Civil já havia informado aos órgãos competentes sobre a necessidade de buscar o cadáver. O falecimento aconteceu no centro da cidade, não muito longe da prefeitura, local movimentado, repleto de gente indo e vindo que mudavam sua expressão quando viam a cena. Alguns apertavam os lábios em sinal de pena, outros enrugavam a testa procurando compreender a situação, alguns paravam para perguntar à mãe o que houve, muito burburinho aconteceu na cidade, mas o silêncio permaneceu por longos 7 dias. No terceiro dia a mãe não chorava mais, silenciou - segundo suas próprias palavras pela compreensão de que aquilo tudo era uma prova de vida, a dela.

Dois anos antes, 2008, na fronteira do Mato Grosso do Sul com a Bolívia, houve uma sensação de desespero um pouco generalizada quando aconteceu a pesada crise financeira no mundo, inclusive no Brasil. Em dois municípios da região que não somam 190.000 pessoas como população e empregam diretamente mais de 5.300 pessoas e indiretamente 10.000 no setor metal-mecânico, 50% delas estava ameaçada de ficarem sem emprego. Por longos 90 dias 1.200 tiveram suas atividades de trabalho suspensas e foram enviadas para casa à espera de uma resposta que ninguém sabia qual era. Outras 3.100 (mais ou menos) tiveram redução de salário e de ganhos porque tudo estava praticamente parado naquele setor. Quase 2.000 pessoas ficaram desempregadas nesta cadeia produtiva. O consumo diminuiu, o dinheiro diminuiu, a cidade ficou menos viva, as prateleiras das lojas mais cheias, a qualidade de alimento à mesa não foi mais a mesma. As empresas âncoras locais do setor metal-mecânico seguiram produzindo em marcha lenta, fecharam unidades, cortaram projetos sociais, projetos de inovação e projetos de educação, contudo, continuaram pagando os royalties devidos às prefeituras. Vivendo e vendo a dor e a tensão nas cidades, confortavelmente para quem precisaria se explicar, o que escutávamos era silêncio.

Já são 4 anos (2014 – 2018) de operações e investigações do caso mais famoso de “descoberta da corrupção” no Brasil. Em torno de 1.000 mandados de busca e apreensão, prisão temporária, prisão preventiva e condução coercitiva; 52 fases operacionais de investigação, o envolvimento de gigantes corporativos e relevantes políticos nacionais. Políticos sendo presos, executivos de empresas negociando suas liberdades ou reduções de pena em troca de contar ao país quanto dinheiro, esquemas, trâmites e sujeiras sem fim foram (e ainda são) realizados com dinheiro público (o seu dinheiro!) e que impactam diretamente na qualidade da oferta de soluções para saúde, segurança, educação, impostos, postos de trabalho, produção de alimentos, cultura, pesquisa entre tantos outros setores da nossa vida para a nossa vida. A maior plataforma de exposição da corrupção na cara de todos os brasileiros cotidianamente. Muitos comentam nas ruas, com os amigos, assistem ávidos os jornais sobre o assunto. O que há, no entanto, é o observar calado dos caminhos, a “fé de que tudo se resolverá da melhor forma” ou da resiliência de que “já deu tudo o que tinha que dar e daqui não passa”.

Em 2018 o Brasil soma a quantia de R$ 450bi (quatrocentos e cinquenta bilhões de reais) de perda de capacidade produtiva, nos últimos 20 anos, em função da criminalidade. Ainda assim, os índices de criminalidade aumentaram assustadoramente (quase 45% numa média geral) em quase todos os Estados brasileiros. São mais de 500 mulheres vítimas de agressão por hora no Brasil - por hora; a violência no país, neste ano, já matou 4 vezes mais do que a guerra na Síria; já é comum ser “engraçadinho” reconhecer que em alguns Estados as coisas são “resolvidas à bala” e que sempre é necessário pedir permissão para quem manda realmente - o tráfico - para avançar em algo que melhore a vida das pessoas. Isto no Rio de Janeiro, em muitas cidades da região norte, nordeste e centro-oeste e em tantos lugares os quais não seria possível descrever aqui e nem, tampouco, sabermos de todos eles. O que há como resposta a tudo isso é nossa vontade de mudança, calada.

São tantos os casos menores e maiores similares aos descritos acima no nosso cotidiano, tantos e absurdamente tantos, que somente cada um pode dizer o que vivencia e vê. Dados gerais não contemplam a realidade deste país, do seu Estado, da sua cidade, do seu bairro desde a hora a qual você acorda até o momento o qual vai dormir. Todos casos que passam por contatos “sutis” na realidade de pagar um transporte mais caro, assustar com o preço do tomate, não conseguir comprar a mesma quantidade de carne com uma semana de diferença, o gás acaba e o dinheiro vai junto, as moedinhas contadas todos os dias, o sentimento (quase imperceptível racionalmente pela maioria) de que é melhor aceitar a coisa como ela é no trabalho ou na vida porque “brigar por si mesmo” pode tornar a coisa pior do que ela já é. E assim tudo o que nos sobra é o silêncio. Não estamos falando do silêncio de palavras. Se você parar para perceber até que fala bastante sobre isso tudo; conversa com o vizinho, com o amigo, com o colega de trabalho, com a família e até conversa sozinho... mas o silêncio das ações é permanente. Em todos estes casos contados, nada ativamente foi feito para que realmente a realidade fosse modificada. É assustador o quanto somos prejudicados todos os dias e continuamos não-ativos.

Para sermos justos existe uma parcela bem pequena de indivíduos ativos aí passando pela sua vida. São os que falam de política partidária, os que brigam com as empresas, os que defendem rótulos e bandeiras acima de soluções práticas, os que discutem por “diversão”, os que negociam com governos e empresas buscando vantagens e não mudanças reais. Estes indivíduos não são mais importantes e relevantes do que você e nem mais capazes de gerar mudança. E saiba, o que eles falam e fazem geram movimentos que não farão grande diferença na sua vida agora.

Há 9 anos estamos trabalhando com indivíduos como você que despertaram para o não-silêncio. Gente que decidiu todos os dias participar da própria realidade de maneira mais ativa e segura por intermédio das nossas plataformas de ação e engajamento. Pessoas individuais que resolveram partir para a ação, sem precisar ir para a rua fazer protesto, sem precisar discutir com ninguém para obter um resultado, sem precisar defender ideologias para proteger a si próprio. Estas pessoas despertaram para o limite do suportável e compreenderam que defender seus próprios interesses as levariam a encontrar outras pessoas dispostas a isso também.

Muitas vezes ouvimos (e isso ainda acontece) que é difícil fazer algo porque todos são corruptos e as pessoas não prestam. Nossa resposta a isto sempre é: se você não é corrupto, se você é capaz de fazer diferente, porque nenhuma outra pessoa seria? E foi a partir daí que começamos a reunir pessoas e mobilizá-las para o que chamamos de o encontro mais lindo do nosso cotidiano: pessoas como você que encontram força em outras pessoas como você. Desta mobilização são criados ambientes e condições seguras para que você tenha voz forte (como indivíduo) e resistente (como indivíduo que encontra outro indivíduo) para ser ouvido e se fazer ser ouvido por qualquer que seja a empresa, governo, estrutura que impacta sua vida todos os dias.

Talvez este texto tenha te deixado incomodado (nós esperamos que sim!) sobre como fazer a mudança. Na próxima semana finalizaremos a série de 3 textos falando sobre isso. Queremos, no entanto, deixar uma última reflexão: onde você está silenciando o que não deve de modo que isto impacta a forma como você se defende?

“Paz sem voz não é paz, é medo”, diz uma das músicas que tocam por aí nas rádios brasileiras.

Quer compreender melhor sobre a m.EU? Entre em contato conosco pelocontato@clubemeu.com.br e siga lendo nosso blog.


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Foto extraída de https://goo.gl/images/kt72Xm

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